O fascismo de mercado[1]
Por Gilson
Caroni Filho
01/05/12
A crise econômica capitalista, em especial nos Estados
Unidos e na zona do euro, começa a dar lugar a golpes e contra-golpes entre os
seus principais atores. Entre eles o receituário apresentado liturgicamente
desde os anos 1990. As reuniões de cúpula que os chefes de governo ocidentais
realizam não se caracterizam pelos seus aspectos resolutivos, mas pelo vazio de
suas proposições.
Ao propor que os orçamentos dos países sejam aprovados primeiro pela EU, antes de ir
para seus Parlamentos – com punição a quem não cumprir metas de redução de
dívida e déficit – a chanceler alemã Ângela Merkel deixa claro que soberania
nacional é um conceito em desuso, uma velharia a ser removida. Frente à crise
imposta pelos princípios liberais globalizantes, notadamente o “salve-se quem
puder” e o “que sobreviva o mais capaz”, que apareciam como mantras nos
melhores manuais de desregulamentação, a única saída é a “fuga para frente”
proposta pelos neoliberais radicais. Deixando governos de pés e mãos amarrados,
a falsa solução passará pela perda de prerrogativas governamentais de conceber
e executar políticas econômicas que atendam aos legítimos interesses dos países
e dos povos.
Na verdade, chegou-se a fórmulas gerais que podem ser
interpretadas de várias maneiras e que, de qualquer forma, não envolvem
compromisso algum com qualquer esfera que não seja a do mercado. Insistir nas
privatizações do que resta de estatal (quase nada), em ajustes fiscais, e no
maior enfraquecimento do Estado, é consolidar o poder do FMI, do Banco Mundial,
das instituições financeiras internacionais e a chantagem das agências de
classificação de risco.
Todo cuidado é pouco para não tropeçar nas palavras e escorregar nos
conceitos. Mas essas transformações e essas metamorfoses significam um
“retorno” ao império das leis do funcionamento da economia mercantil-
capitalista, temporariamente represadas por obra e graça da rebelião
democrática do imediato pós-guerra, que ensejou
a Grande Transformação.
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| Luiz Gonzaga Belluzzo |
Como recordou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, “em
sua essência, as práticas do Estado intervencionista e do Bem-Estar buscaram,
por meio da aplicação política de critérios diretamente sociais, encontrar soluções para os problemas de
satisfação das necessidades humanas e da vida decente para a maioria, negando,
assim, as condições de existência impostas ao cidadão pela “ratio” do capital,
cujo único propósito é acrescentar o seu valor”.
A vitória do reformismo liberal fez recuar as tentativas de domesticar a
mercantilização universal e a concorrência sem quartel. Na Europa, a
social-democracia passa a ocupar uma
posição de centro-direita rasgando a máscara da “terceira via”, que fez grande
sucesso e gerou expectativas em toda a esquerda do continente. Antes mesmo da
crise do euro, os serviços públicos , como saúde, educação e transporte,
conheceram uma considerável piora. Ainda no final do século passado, críticos
de esquerda acusavam o então primeiro-ministro britânico Tony Blair de impor ao
Reino Unido um “thatcherismo” com rosto humano.
Quando o capital financeiro estabelece sua supremacia,
a cidadania é suprimida. Os sistemas de crédito e os dispositivos do mercado
passam a se encarregar dos desígnios despóticos do capital sobre a massa de
trabalhadores e os países mais fracos. É isso ao que estamos assistindo no sul
da Europa. Algo que, guardadas as devidas proporções, vivemos na América Latina
durante duas décadas. Por meio de disciplinas e sanções, sempre legitimadas na
grande mídia, o fascismo de mercado se instala.
Fora da política não há salvação. Como bem sabemos por
aqui.
[1] Fuente: http://www.viomundo.com.br/politica/gilson-caroni-filho-o-fascismo-de-mercado-se-instala.html.
Revisado: 01/05/12.

