Yoshiaki Nakano: Livrar o Brasil da
mentalidade colonial[1]
01/05/12
Trecho
de entrevista do economista Yoshiaki Nakano à CartaCapital, reproduzido na
Resenha Eletrônica, dica recolhida no Conversa Afiada
CartaCapital: O senhor está otimista com 2012?
Yoshiaki Nakano: Estou, mas lógico que para ficar
otimista é preciso fazer aquelas mudanças que eu disse (desindexar a economia,
melhorar a gestão pública, reduzir o Custo Brasil). Se fizermos essas mudanças,
o Brasil poderia entrar em uma situação parecida com todas as crises
internacionais anteriores. É muito interessante observar o seguinte na história
do Brasil. O Brasil de certa forma deslanchou nas últimas décadas do século
XIX. Criou-se então um projeto para construir uma sociedade moderna, urbana.
Foi a crise dos anos 1880 que gerou migração,
resolvendo os problemas que permitiram o início da industrialização. Durante a
Primeira Guerra, expandimos; durante a Segunda Guerra, expandimos. Com a crise
de 1930, finalmente mudamos o polo de crescimento, do dinamismo de fora de uma
economia exportadora, e nos industrializamos. Então o Brasil foi bem nos
momentos de crise. A lógica disso é complexa, mas muito evidente e clara.
CC: Qual é essa lógica?
YN: O Brasil ainda tem uma mentalidade colonial,
valorizamos aquilo que é do exterior, do Primeiro Mundo. Nós não pensamos com a
nossa cabeça, importamos as coisas etc. e particularmente as ideias. Quando o
mundo entra em crise, entra em crise todo um modelo, todo um pensamento, todo
um conjunto de ideias. A teoria econômica, ortodoxa, convencional, prevalecente
entrou em declínio. Então, o que é preciso fazer nos momentos de crise? O
Brasil precisa pensar com a própria cabeça e olhar para dentro.
Aí você vai descobrir que tem potencial de crescimento,
problemas que precisam ser resolvidos, e deixa de olhar para uma miragem.
Aquilo em que eles acreditam e desenvolvem vale para eles, não para nós. Então
você tem nesses momentos de crise internacional um momento de crise também do
pensamento econômico, de um modelo econômico, da estratégia de crescimento
daqueles países… Hoje ninguém está querendo copiar alguma coisa da Europa ou
dos EUA, que estão em crise em termos de pensamento. Então você vai ter de pensar
com a própria cabeça.
Essa é a grande mudança que permitiu ao Brasil avançar.
Você deixa de priorizar a globalização e passa a priorizar os problemas de
interesse doméstico. E enfrentar os problemas domésticos mais para valer.
Porque o dinamismo não vai mais vir de fora, tem de ser aqui de dentro. E
aquelas coisas de Consenso de Washington… isso já foi lá pra baixo. Então, na
verdade, essa crise está derrubando um tipo de hegemonia política e ideológica
de um pensamento que existiu. Isso abre espaço para você pensar o País.
CC: E como o senhor avalia o pré-sal?
YN: Neste contexto atual de crise, talvez seja muito
importante. Agora tem outro fator, que é também muito importante e foi
importante na transição de que falamos, do fim do século XIX e início do XX,
para finalmente mudar o modelo em 1930. É que os países emergentes estão
crescendo. Os países desenvolvidos é que vão declinar. E a estagnação, a crise
dos países desenvolvidos, já está gerando imigração.
A imigração não vai vir dos desempregados do mundo
emergente, mas de gente qualificada do mundo desenvolvido, e isso já está
acontecendo. Sei de empresas que estão trazendo engenheiros de Portugal, da
Espanha. Então o nosso problema de qualificação vai ser resolvido pela vinda
eventualmente de imigrantes, de gente qualificada. E isso vai obrigar os
brasileiros a reagir. Se você demanda aprendizagem, as instituições que
conseguem fazer o aluno aprender vão ser valorizadas. As que não fazem isso vão
lá pra baixo.
Esse pode ser um fator que dê impulso à produtividade e
eficiência no Brasil. Essas coisas acontecem nesses momentos de crise, como
aconteceu na década de 1870, em geral na Europa, a vinda maciça de imigrantes.
E lógico que aí você precisa reduzir a burocracia de imigrantes no Ministério
do Trabalho, que é um absurdo.
CC: o senhor acredita que a inclusão das classes
emergentes tem fôlego para se manter nos próximos anos?
YN: Acho que tem. Na verdade, acho que o fundamental
não foram os programas sociais. O que os programas fizeram foi importante, não
estou desmerecendo. Mas o fundamental foi a mudança demográfica. Lá na década
de 1970, a taxa de natalidade começou a cair. No inicio da década de 1980, já
caiu. E a partir de 2004, a população jovem, de 18 a 24 anos, em termos
absolutos começou a cair. Tinha 35 milhões, hoje deve ser de 33 milhões ou 32
milhões.
A populacão está envelhecendo. Então é na base da
pirâmide que o salário, está subindo. Acho que a imigração vai vir, mas não vai
reduzir o salário porque vai vir gente de nível mais elevado e que tem salários
melhores. Os emergentes também estão crescendo e têm essa imigração para
disputar. Essa mudança demográfica mudou a dinâmica do mercado de trabalho. Em
um conjunto enorme de setores, como o custo de mão de obra era tão baixo,
contratava-se gente muitas vezes de maneira informal. Agora teve não só de
formalizar como pagar mais, então passa a ter a preocupação com produtividade.
Basta ver o que acontece no mercado da construção. Se olhássemos uma obra, a
ineficiência saltava aos olhos, viam-se trabalhadores tropeçando uns nos
outros. As empresas agora têm de pagar mais, tem de ter menos gente, e vai ser
necessário incorporar tecnologias com maior produtividade. E isso já está
acontecendo.
Prédios que levavam quatro anos para ser construídos
agora são erguidos em 20 meses. Lá fora, constrói-se em seis meses. Esse tipo
de avanço tecnológico está vindo e virá para todos os setores. Empresário que é
empresário vai olhar e ver que existe um monte de oportunidades que ele pode
fazer. O cara que estava despreocupado com inovação, que reclamava que o
trabalhador custa caro, vai ver que não adianta, se ele não pagar mais não
consegue.
CC: Há como elevar a produtividade por aí?
YN: Há um espaço infinito para aumentar a
produtividade. Criamos um circulo virtuoso: saímos de uma situação de economia
com excesso de trabalho e estamos passando para uma economia normal, com uma
dinâmica de mercado de trabalho diferente. O círculo virtuoso em que se aumenta
o salário e o empresário tem de aumentar a produtividade para manter a margem
de lucro.
Se você paga um salário maior, o mercado é maior, então
surgem novas oportunidades de crescimento. Em outras palavras, estamos
finalmente criando no Brasil uma estrutura produtiva sem aquilo que Celso
Furtado e (Raúl) Prebisch chamavam de insuficiência dinâmica. Porque o que
caracteriza a estrutura produtiva dos países desenvolvidos é que ela própria,
seu próprio funcionamento, é capaz de gerar estímulos dinâmicos. A própria
operação do sistema gera crescimento.
Se você está na fronteira tecnológica, isso se dá
através de inovações. O nosso problema não é inovação, é gerar demanda. E
criamos um sistema em que a própria operação do sistema gera demanda sem
pressão de custo. O salário sobe, a produtividade sobe, o custo unitário do
trabalho está caindo, a margem de lucro se mantém. É possível autofinanciar os
investimentos e expandir. Tem um circulo virtuoso que pode durar algumas
décadas, é uma oportunidade histórica, mas têm coisas que travam: juros altos,
câmbio destrutivo, falta de investimento em infraestrutura, falta de poupança
do setor público etc. Se você mudar isso, o potencial de crescimento da
economia é outro. Se conseguir fazer ajustes e elevar a taxa de investimento a
24% ou 25% do PIB não há razão para a economia brasileira não voltar a crescer 7%.
PS do Viomundo: Quem é que, diariamente, reforça a tal
‘mentalidade colonial’ dos brasileiros? Quem seria?
[1]Fuente:http://www.viomundo.com.br/entrevistas/yoshiaki-nakano-livrar-o-brasil-da-mentalidade-colonial.html.
Revisado: 01/05/12.