Carta das Mães de Maio do Brasil às Madres e Abuelas da
Plaza de Mayo[1]
Por Conceição Oliveira
@maria_fro
01/05/12
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| Nora Centeno |
Transcrevo
a Carta das mães de maio brasileiras para as mães e avós argentinas da Praça de Maio em solidariedade
a Nora Centeno brutalmente agredida em sua casa, na presença de familiares.
São Paulo, 15 de Março de 2012
Queridas Madres e Abuelas de La Plaza de Mayo,
É com extrema preocupação e, ao mesmo tempo, em
irrestrita solidariedade que, do Brasil, lhes escrevemos esta mensagem.
Acabamos de receber a notícia de que uma das fundadoras do movimento, a
companheira Nora Centeno (foto), foi violentamente agredida e torturada em sua
própria casa, na presença de familiares, na manhã da quinta-feira, 15 de março,
por razões ainda desconhecidas.
Considerando intoleráveis esses bárbaros e
sinistros acontecimentos, registramos nossa indignação e nos colocamos lado a
lado da companheira Nora, sua família, sua luta histórica, e de todo o
movimento das Madres e Abuelas. Mais que um patrimônio do povo argentino,
consideramos Nora e esses movimentos, um patrimônio da nossa América Latina e
de toda a humanidade, na luta pela verdade e justiça sem fronteiras. É,
portanto, a partir deste nosso entendimento, que nos juntamos a vocês para
exigir das autoridades competentes, o completo esclarecimento sobre mais esta
violência, suas motivações e o indiciamento e punição em termos da lei dos
responsáveis diretos e indiretos (se os houver) por tamanha barbárie.
Inspiradas também por vocês, nós constituímos em
nosso país o movimento das Mães de Maio da Democracia Brasileira. Talvez vocês
ainda não nos conheçam: somos um movimento relativamente recente, formado por
Mães, Familiares e Amig@s de vítimas do Estado Brasileiro, criado a partir dos
Crimes de Maio de 2006.
Nosso país, como a Argentina, também viveu uma
longa ditadura civil-militar, de 1964 até 1988 – quando foi proclamada uma nova
Constituição por aqui. No entanto, o novo Estado Democrático constituído, por
não haver esclarecido os crimes cometidos no regime anterior, e não haver,
portanto, julgado e punido seus responsáveis, mantém agentes estatais
(sobretudo no poder Executivo e Judiciário, e suas respectivas polícias) que
continuam a promover o terror contra os nossos trabalhadores e os mais pobres,
principalmente nos bairros populares e das periferias das grandes cidades, em
especial contra a nossa juventude pobre e negra. Para vocês terem uma ideia da
dimensão dessa violência sistemática vivida por nós, a média anual brasileira
de homicídios gira em torno de 47 a 50 mil assassinatos por ano, ao longo de
toda a última década, deixando o Brasil no topo do ranking dos países com o
maior número de homicídios em todo o planeta, segundo a ONU. Ou seja, nas
últimas 3 décadas de “transição democrática”, já contabilizamos cerca de 1
Milhão de assassinatos, conforme assume o próprio Ministério da Justiça em
nosso país ao divulgar o seu “Mapa da Violência 2012”. A grande maioria desses
assassinatos é realizada por agentes do próprio Estado, ou grupos paramilitares
e de extermínio, ligados a ele e/ou aos grandes proprietários, o que configura
um estado de sítio continuado e permanente, pelo menos contra os trabalhadores
de menor renda e o povo pobre das cidades e do campo, em plena “democracia
plena”.
Nosso movimento é fruto e resposta a essa
barbárie, e a ele demos o nome de “Mães de Maio”: durante o mês de maio de
2006, no estado de São Paulo (o mais rico do nosso país) ocorreu o maior dos
massacres destes mais de 20 anos de “democracia plena” – uma democracia plena
de chacinas. Numa série de ataques contra a população das periferias das
grandes cidades de São Paulo, agentes policiais e paramilitares ligados a
grupos de extermínio mataram mais de 560 pessoas durante apenas 8 dias (de 12 a
20 de Maio de 2006). Um verdadeiro massacre que tirou a vida de muitos dos
nossos filhos, e que passamos a chamar de “Crimes de Maio de 2006”.
A triste coincidência entre o mês de Maio que
vitimou nossos filhos, e a “Plaza de Mayo” – que dá nome ao movimento de vocês
na Argentina, bem como toda a referência histórica que o movimento de vocês
significa para todas nós na luta pelo direito à Memória, à Verdade e à Justiça,
e na luta por uma Verdadeira Democracia, fez com que escolhêssemos chamar ao
nosso movimento de Mães de Maio da Democracia Brasileira. Mas não se trata
apenas de um nome, ou de um recurso de propaganda e marketing. Trata-se de um
compromisso. O compromisso de buscar e praticar o exercício cotidiano da
solidariedade com as lutas históricas da classe trabalhadora, dentre as quais a
resistência contra todas as ditaduras civis-militares no Cone Sul – o que
consideramos absolutamente fundamental. Nós das Mães de Maio sempre fomos, e
continuaremos a ser, solidárias à luta de tod@s @s perseguid@s, pres@s
polític@s e assassinad@s pelos Estados latino-americanos, desde os povos
originários massacrados, @s african@s sequestrad@s para o nosso continente na
condição de trabalhador@s escravizad@s, os camponeses e camponesas expulsas de
suas terras e assassinad@s, @s operári@s explorad@s, as vítimas e parentes de
pres@s e perseguid@s políticos das ditaduras civis-militares, e a@s milhares de
pres@s polític@s atuais de nossos países, em sua maioria de origem
afro-indígena e pobre, das periferias e dos movimentos sociais.
Estamos convencidas de que é o sepultamento da
Memória, a não-revelação da Verdade e a falta de verdadeiros processos de
Justiça contra as violências históricas dos Estados contra seus cidadãos e
cidadãs – estas negações de direitos – que estão na origem da continuidade da
violência e do terror do Estado, mesmo em tempos de “democracias plenas”.
Enquanto não se tiver a coragem de enfrentar todo o poder econômico, político e
militar que faz questão de perpetuar, em cada um de nossos países, a violência
das elites e seus respectivos aparatos estatais contra a maioria de nossas
populações, para nós de nada significará a utilização dessa palavra “democracia”,
a não ser como forma de engodo.
A barbárie desencadeada nesta quinta-feira
(15/03) contra a companheira Nora Centeno, longe de nos intimidar, nos torna
ainda mais alertas e solidári@s, e aumenta a nossa disposição de nos juntarmos
a vocês em mais esta jornada.
As notícias que temos são de que – em termos da
Justiça de Transição para a Democracia – o avanço das conquistas na Argentina
são bem maiores que o que temos conseguido em nosso país. Sem dúvida, são
notícias que procedem – enfim, vocês já conseguiram levar às barras dos tribunais,
julgar e condenar generais e até chefes de Governo e Estado do período da
ditadura. Isto nos dava, portanto, algum alento frente ao que aí se passava. No
entanto, a recente violência contra Nora Centeno, nos deixa preocupad@s e em
estado de alerta.
A violência cometida contra Nora Centeno é um
alarme para que sigamos mais próxim@s e mais solidári@s uns aos outros –
trabalhadores e povos latino-americanos – atentos a qualquer tipo de
continuidade ou de reação dos fascistas de plantão, que seguem vivos e atuantes
em cada um de nossos “estados democratizados”, muitas vezes travestidos na pele
de “gestores progressistas”. Não foi em nome de “democracias” que considerassem
“normais” este tipo de violência cometida hoje contra Nora aí na Argentina, e
praticada cotidianamente contra jovens pobres e negros aqui no Brasil, que
lutaram todos os nossos netos ou filhos assassinados, tampouco é por esta
“democracia” que nós Mães e Avós seguimos lutando!
Força a todas vocês, companheiras! Sigamos
atent@s e solidári@s!
Abraço carinhoso e especial à companheira Nora
Centeno e toda sua família!
Pelo Direito à Memória, à Verdade e à Justiça!
Ontem e Hoje! Aqui e aí!
A Luta por Liberdade não tem fronteiras no Tempo
e no Espaço!
Mães de Maio da Democracia Brasileira
[1] Fuente: http://www.viomundo.com.br/blog-da-mulher/carta-das-maes-de-maio-do-brasil-as-madres-e-abuelas-da-plaza-de-mayo.html.
Revisado: 01/05/12.
